Marina G

Terça-feira, Março 31, 2009


Senhor juiz este casamento será pra mim todo meu tormento

Dia desses fui na casa de uma amiga que está há alguns meses na árdua tarefa de organizar detalhes para o seu casamento - daqui a "apenas" um ano e meio - e ouvi dela a seguinte frase: "vi umas fotos de uma festa que é perfeita pra você, o lugar é lindo e os noivos entravam ao som de uma banda de chorinho". Coincidentemente, na semana seguinte, saiu a edição especial de Noivas, que todo ano fazemos aqui na nossa editoria. Me apaixonei de cara por um vestido, na verdade duas peças, tomara-que-caia e longuete. Chique e simples. Os episódios abriram meus olhos para uma revelação surpreendente: talvez eu queira me casar.

A constatação parece ser bem contraditória, já que nunca acreditei no pra sempre (talvez em 1996 eu tenha acreditado, assumo, mas era meu primeiro namoro sério). E pra que casar, fazer festa, gastar rios de dinheiro com um vestido que nunca mais será usado, se eu acredito que nenhum relacionamento dure pra sempre? Qual a lógica de fazer planos eternos, sonhar com casa própria, lua-de-mel, dividir contas, se um dia tudo pode (e vai) acabar? Morar junto sempre foi meu ideal prático de vida a dois. E isso eu sempre quis. Mas nunca, até então, havia passado pela minha cabeça fazer festa alguma. Meu pai deve ter sido meu modelo: casou duas vezes no civil; na primeira com minha mãe e um barrigão enorme por baixo de um vestidinho clarinho estampado; na segunda, dez anos depois de morar junto com a minha madrasta. Nunca gastou um tostão com festas e sempre foi muito bem casado.

Ainda não sei se foi a proximidade dos 30, cada vez mais evidente; a quantidade de amigas (ou amigas das amigas) falando de festa de casamento; ou ainda o tomara-que-caia com a longuete e a imagem de uma cerimônia ao som de um chorinho. Ou tudo junto. A questão é quero me casar, fazer festa, com direito a vestido branco, bolo e tudo mais. Claro que sem preparativos excessivos, sem convites tradicionais, sem igreja, padre, essas coisas caretas. Na praia, com roda de samba, feijoada (não combina com vestido branco né?); no sítio, com chorinho e pôr-do-sol. E descalça. Só falta encontrar o marido.


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Quinta-feira, Março 12, 2009


Sempre o último a saber

Ela conhecia os gestos, de quando era verdade ou era mentira o que ele dizia. Sabia quando a blusa era nova e ele nunca tinha usado antes. Sabia até das manchas nas camisetas antigas. O que ele gostava de comer vendo o jogo de futebol, que dia de verdade ele tinha nascido, os bares que ele gostava de ir depois do trabalho. Sabia o humor dele quando acordava, do que gostava de fazer antes mesmo de escovar os dentes. Conhecia bem as variações de humor e sabia o que fazer em cada uma delas. Conhecia seus horários, a rotina do trabalho. Conhecia bem seus amigos, suas brincadeiras e apelidos, sabia quem tava lá pra sempre e quem deveria ser de passagem.

Sabia do seu passado, das anteriores, das que marcaram, das que não disseram nada. Sabia a cara que ele fazia quando não tinha o que dizer, de como mudava de assunto, de como ele fazia para evitar certos temas. Sabia do lhe afligia, da saudade desmedida de quem tinha ido, da música que lembrava a infância, do filme que ele não cansava de ver. Sabia quando era querida e quando a presença dela sobrava. Sabia onde encontrá-lo, em que hora ligar, em que dia sumir. Sabia onde ele estava, mesmo sem saber.

Sabia que não era dele e nem ele dela. Sabia que existia um limite, que ora ele andaria um pouco para frente, mas logo depois teria que recuar. Sabia de tudo que não seria. Sabia que não ganharia presentes, nem cartas, nem flores, nem surpresas. Sabia que ele nunca estaria no aeroporto, que nunca iria na casa de seus pais, que nunca mandaria uma mensagem porque havia pensando nela no meio da tarde. Sabia até onde poderia ir. E sabia que sempre saberia mais dele que ele dela. E um dia, sabendo de tanta coisa, ela soube a hora de ir. E foi.


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Quarta-feira, Março 04, 2009


Vou beijar-te agora, não me leve a mal hoje é carnaval

Nada contra quem gosta de fazer do carnaval uma micareta de quatro dias - ou seriam 10? - mas nunca me apeteceu essa história de beijar saliva alheia. Beijinho, beijinho, tchau, tchau me parece coisa de adolescente e eu sempre achei mais legal ficar com um carinha legal todos os dias, ou um por um dia (ou por bloco), que seja. Mas nunca tive nada contra quem gosta dos beijos roubados, cantadas baratas e afins. E este ano resolvi estar mais aberta a essas efemeridades momescas, pra ver no que dava.

Fui simpática até o osso com os piadistas fantasiados, e até, confesso, tentei achar um pierrô desconhecido a cada vez que o verso do título do post tocava. Ouvi abobrinhas, mas também boas cantadas. Conheci drags de fio-dental, mas piratas bem interessantes. Mas ainda assim: em vão. Fiz avanços, é claro. Mas continuo preferindo os amigos, ou amigos dos amigos, ou mesmo os de sempre.

Pode parecer medo, puritanismo, ou ainda hipocrisia. Mas juro, não é nada disso. Nada contra mascarados de temporada, nada contra dar uns beijos sem querer ver a pessoa de novo - ou encontrar o sujeito aos amassos com outra segundos depois -, nada contra o euforia carnavalesca que faz com que todos sejam mais belos e simpáticos. Eu simplesmente morro de preguiça de conversar em pleno bloco. E até hoje não aprendi a arte de beijar sem fazer perguntas.


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